13 outubro, 2018

Vagner Braz

Cores de um piquenique

Eu tenho
inveja do arco-íris
Pois, ele sempre aparece para abraçar a chuva e o sol
Numa união entre diferentes
Iguais nos processos de sorrisos

Está é a minha poesia de luta!

Eu desejo aos diferentes
tudo que o universo pode oferecer
Somos vidas
Somos lésbicas,
Somos gays,
Somos trans,
Somos mulheres,
Somos homens,
Somos amor.
Resistência somos!

Somos vocês

Eu posso sentir o arco-íris dizer
Que somos fortes o suficiente
Para lutarmos contra
os nossos preconceitos
E dos Outros

Sim, eu preciso mais de vocês
Não há arco-íris sem chuva e sol
Não há amor sem união
Não há luta sem resistência
Não há eu sem tu


Eu acredito no amor
Somos amor
Somos o que um dia uns LGBT’s
Cogitaram existir
Uns foram mortos
Outros foram os feitores
Corpos e garrafas quebradas
Caídos no chão
De manhã
Era dor e sofrimento

Somos resistência
Diversidade
Plural

Eu quero ser o sorriso,
que tu levas para casa
Que quando chegas
Vive o arco-íris
Que ousas dizer
E pensar por si mesmo
Amor
Vida
Processo que resistiremos para amar sem temer

(Vagner Braz, 11/10/2018, às 01h20min, Cáceres-MT/Brasil)

11 outubro, 2018

As Valiosas Bugigangas de Divanize Carbonieri, por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon | Em qualquer inventário, sobretudo o literário, importa tanto saber o que está arrolado, quanto o que está esquecido. É que o que o autor não diz pode ser mais importante do que a própria escrita. Esse tipo de arrolamento é prazeroso em autores que escondem propositalmente a intenção, ou ainda, escondem-se nas palavras. Talvez tenhamos aí um bom termômetro para mensurar a densidade de uma obra e, por isso, quero destacar a poeta Divanize Carbonieri que pipocou pronta para o consumo nacional, temperada com sal e pimenta, nas duas obras publicadas recentemente pela Editora Carlini e Caniato – Entraves e Grande Depósito de Bugigangas.
Os títulos são complementares, não coincidentemente. Há uma estrutura que sustenta a lógica autoral – não existe um depósito de bugigangas que não sejam, de certa forma, entraves. O entrave é o que atrapalha, impede, obstrui. Pode ou não ser uma bugiganga. Sendo ou não, o que importa é que Divanize quer cantar o excesso acumulado, colocando o subjetivo e o objetivo no mesmo patamar de quinquilharias. Ocorre que, em meio a tanta coisa inútil que incomoda e está confusamente superposta, a autora esconde uma ausência – e é aí que a poesia torna-se maior. Pergunto: como a poeta faz caber em si tanta coisa?
Divanize começa o poema Inventário (em algum momento, em meio à montanha de itens poéticos, a mania de listagem iria surgir) referindo-se à desimportâncias tão caras a Manoel de Barros: “um inventário de/ pequenas coisas/ cachos de açucenas/frascos de alfazemas/ caixas de brinquedos/ bonecas e bodoques”… e termina por negar-se à faxina: “poucos são os badulaques/ realmente necessários/ mas dispensá-los/ é uma sabotagem/ para o espírito/ inventariante e/ catalogador”. O discurso da eficiência é descartado pela poeta. Ela é uma acumuladora de memórias, de sentimentos, de impressões. Romântica? É muito provável. No ato acumulativo, a sobrevalorização do passado, a conservação próxima dos antigos significados, a resistência por desembaraçar-se de velhos hábitos são práticas comuns.
Na rica linguagem de Entraves, Divanize enumera toda a sorte de “embaraços”: flores pisadas, homens de terno, animais vagabundos, guarda-roupas e mesmo paquidermes de toda a sorte. Chama particular atenção como a poeta enxerga o corpo obeso do paquiderme, ele mesmo mais um entrave entre tantos outros. A composição Paquiderme é repleta de duplos sentidos, enriquecida por um vocabulário denotativo: “a pele do paquiderme/ padece na secura do deserto/ ranhuras prenhes de pó/ sulcos desenhados como/ quadrados na epiderme/ enquanto pasce ressequidos/ ramos sem se impacientar/ em súbita e sibilante sequência/ na sediciosa intempérie/ uma tempestade de areia/ delineia-se diante dele/ sente o impulso de desertar/ mas empaca apalermado/ tomado de paralisia suicida/ permanece parado e quieto/ em pouco tempo se alquebra/ enterrado no granito cristalino/ sucumbe na grande estrutura/ arquitetônica de seu corpo/ uma catedral de carne rota”.
É comum observar a relação entre as contradições do vazio e cheio – tudo se transforma: a pele em piso, o osso em ogivas e o corpo, em igreja. O jogo travoso entre a proximidade vernacular – epiderme, paquiderme, apalermado, intempérie – causa admiração pela erudição da autora. O binômico deserto/desertar também soma qualidade estética ao entrave vocabular e estético de Divanize Carbonieri. Nesse mesmo sentido, a pele é um tema recorrente. No poema Entraves, por exemplo, “um talho rasgado em plena epiderme/ não é qualquer falha de caráter que torna/ arrastado o existir por entre trastes/ é o completo sequestro da sanidade/ que arruína para sempre toda a chance/ de se desentulhar os últimos entraves” e, também em Riscos: a pele não é mais pintada nem riscada/ sua aspereza não se dá pelo sulcos/ arranhados por poucos espinhos e ossos”. Por fim, cito um trecho de Mestiça: “cicatriz herdada/ bordada na epiderme/ o verme que devora/ rememora o ancestral/ espectral ascendente/ resplandecente rama/ da trama antiga”. Finalmente, pinço do poema Lacuna: “a tez do tecido igual ao tema urdido/ da derme rota dessa menina morta”. Percebe-se a obsessão com a comparação entre pele e morte.
Chamo atenção para o “jogo travoso” de Divanize porque quase todas as composições são hostis à primeira leitura. É como os “tigres tristes atravessando o trem das três” ou “o rato roendo a roupa do rei de Roma”. Os entraves começam na linguagem truncada, abusando de proparoxítonas: súbito, decúbito, espírito, moléstia etc. Vai truncando, truncando até chegarmos no violento poema Úvula: “ululando/ a úvula/ uma válvula/ volátil/ da voz/ lamentosa/ o látego/ do grito/ regurgitado/ gira e atinge/ três/ tons/ timbres/ brados/ brutos urros/ roucos/ rosnados/ o couro/ cru da/ dor”. E também no poema Gatas do qual seleciono um trecho: “tigradas/ tricolores/ chitadas/ ciciando/ no colo preguiçosas/ esticando/ as garras/ estreitando/ as presas/ sorrateiras/ no assoalho das casas/ cascalho/ areia/ saltando nos galhos/ das goiabeiras”. Ainda: “mulher é a trava/ ataviada/ travestida/ avestruz/ atroz”.
Toda essa riqueza de entraves poéticos, estorvos fonéticos, de inutilidades subjetivas, esse entulho cuidadosamente inventariado por Divanize Carbonieri (vide o poema Utensílios), quer esconder uma falta – a falta do amor. O que sobra inevitavelmente sublinha o que falta. No Grande Depósito de Bugigangas, é possível rever os gatos, os utensílios, as roupas, as fotos, um conjunto sufocante. Mas, entrelinhas, a poeta acaba por se confessar: “muito eu amei/ como se animada/ por uma mania”, do poema Melodia. Ou ainda: “cumpre-se o fado/ admirável sina/ de dardejar/ o alvo que se quer/ sobejamente amar”. No poema Empório, a poeta arrola “desse grande depósito de bugigangas/ilusões empoeiradas à escolha/ de todos os catadores de destroços/ que emprestam seus esforços/ para a recolha dos cacos de sonhos”. Tantos trastes colecionados podem ser decepções que se colecionam em cartas extraviadas, em fotos amarelecidas, em pequenas lembranças opacas.
Já no final do segundo livro, Divanize entrega-se completamente: “um formidável espécime/ pusilânime caráter/ energúmeno exemplar/ imprestável indivíduo/ um infame mequetrefe/ matusquela infantil/ um cafajeste sem par/ errante meliante/ um patife de marca maior/ um amante/ amado cada vez mais e melhor”. Importante sublinhar o “matusquela infantil” e contrapor essa expressão de desejo/rejeição com o poema Corpo: “corpo é empecilho/ um castigo/ no meio uma chaga/ encharcada/ uma parelha errada/ para o macho/ menor na estatura/ piorada por todo o lado/ pelo corpo se mensura/ a capacidade/ dimensiona-se o préstimo/ e a utilidade/ com o corpo/ faço um pacto/ de ser amotinada/ desengonçada/ desgraçada/ escapando ao corpo/ posso ser de verdade”.
Na poesia de Divanize Carbonieri há muitos empecilhos contemporâneos. O corpo é o maior deles, sem nenhuma dúvida. Sua relação com outros corpos, com o espaço exíguo, com a vida e com a morte, faz do corpo o protagonista (talvez antagonista) da pós-modernidade, onde se pode riscar, traçar, tatuar, compor, recompor, fustigar, identificar. É provável que a própria Divanize inclua-se nesse grande depósito de bugigangas, no mais das vezes como um entrave, ela que incorpora o espaço de acumulação e preenche esse enorme vazio que há em todo grande poeta.
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31 agosto, 2018

Publicado na Folha de S. Paulo: Morre o poeta e artista visual Wlademir Dias-Pino, aos 91 anos, no Rio

Fundador da poética construtiva no Brasil, liderou o poema-processo e criou obras seminais

Wlademir Dias-Pino
Por Adolfo Montejo Navas, em 30.ago.2018

O poeta Wlademir Dias-Pino morreu nesta quinta-feira (30) , aos 91 anos, em decorrência de uma pneumonia, no Rio. Ele estava internado desde o dia 13 de agosto.

A cerimônia de cremação acontece neste sábado (1º), às 16h, no Cemitério do Caju, no Rio.

Wlademir Dias-Pino foi autor de uma obra visual e gráfica extensa que chega até hoje.

Começou jovem, pela poesia, com livros que escapam do contexto da época e do cânone da Geração de 45, "A Fome dos Lados" (1940) ou "O Dia da Cidade" (1948), ainda mais sendo editados em Cuiabá, onde morava desde 1936, em razão do exílio forçado de seu pai, anarquista. Era, portanto, um lugar fora das capitanias do litoral, como gostava de salientar em seu ideário geopolítico.

29 maio, 2018

Etevaldo de Almeida

Antropofagia, a psicologia da fome


Seus olhos são lindos como zumbido de abelha no preparo do mel.
Seus olhos são lindos como romãs - cheios de olhinhos rosados.
Seus olhos são lindos como tomates maduros na roça.
Seus olhos são lindos como mamões maduros no pé,
como chiado de carro-de-boi carregado,
como lufada de lambari rio abaixo,
como vôo de pomba no mato,

27 maio, 2018

25 maio, 2018

Américo Corrêa

MINHA NEGUINHA


A sua pele negra
de breu pálido.

Essa boca risonha
de dentes alvos.

Esses olhos morenos
que me deixam mudo.

Esse corpo convite
que caminha solto.

23 maio, 2018

Gilson Romeu da Cunha

DESATINO


Com a lucidez dos loucos
amei muito
não foi pouco
amei a mulher à toa
amei a mulher jovem
amei a mulher coroa
amei a mulher dama
amei a mulher da rua
amei a minha mulher
também amei a tua

21 maio, 2018

Carlos Lisboa

O Tempo

Já me sinto com longa e densa idade
como se os anos dessem-me licença
para cantar as dores com verdade
e o futuro ver com indiferença.

Percebo que o porvir é uma sentença
que sempre ilude o olhar, igual vaidade
como se fosse, a fé, contrário a crença
de quem na morte almeja liberdade.

17 maio, 2018

Natalino Ferreira Mendes

Vapor Etrúria


Um longo apito ecoa sonoroso!
— Etrúria!... Diz o povo emocionado.
Já o porto de gente está apinhado:
— Eis, na volta do rio, o barco airoso.

Anos mais de cinquenta, no passado,
ligaste a Corumbá, vapor formoso,
a urbe de Albuquerque (nome honroso!)
– único meio de transporte usado.

15 maio, 2018

Marilza Ribeiro

Sensualidade vegetal


Flor do cerrado
         desabrocha
escancarando sua cor
    na ramagem verde-veludo
que aguarda
     ingênua
as mãos de ferro
que lhe exterminam
        a existência.

Cor dourada
reluz como útero sagrado
          no ventre da mata
como terna canção brotada
          do fundo da terra.

14 maio, 2018

Ana Cláudia Colle



VILA BELA ENCANTADA




Vila Bela encantada,
Dos cânions e das quedas d'água
Vila que não recebeu esse nome de graça.
Escondia seus encantos
Para que aos poucos, os poucos que arriscassem se encantassem.

Vila Bela encantada,
Quanta energia tem em suas águas,
Nem turbina nem hidrelétrica,
É o arrepio no corpo que mede a intensidade dos watts.
Que paz que me traz,
Quanto bem que me faz caminhar pelas trilhas,
Sentir tantos cheiros...
Depois de passar cinco semanas seguidas me encantando não te deixo nunca mais!

06 maio, 2018

Vagner Braz


VINHOS DE LAURÉIS

                                                                                                                      À Doutora Edna Sampaio.

A imagem pode conter: Edna Sampaio, sorrindo, óculos e close-up


O destino rega teu corpo
Tua alma saboreia vinhos de lauréis
Que vivera em todas as tuas travessias
Mulher, Negra, ungida de ordem, livre Doutora
Transformastes tua vida para o bem dos outros
Hoje tu desbravas os limites unematianos
Acoplando os céus da comunidade acadêmica
Pela luta de direitos humanos
UniVERsidade, Edna Sampaio!
DiVERsidade, Edna Sampaio!
PluriVERsidade, Edna Sampaio!

05 maio, 2018

Eduardo Mahon

para você
mando presentes
desembrulhados:
um pôr do sol
três dedos de neve
garoa fina
uma boneca
de menina
latido de cachorro
para estrelas cadentes
duas flores secas
um café bem quente
cheiro de mar
a brisa na vela
a minha vista
da janela
toda luz de Paris
sonho perdido
a primeira vez
com os votos de
para sempre
como eu sempre quis

03 maio, 2018

Lamartine Mendes

Domingo de procissão


Sinos. Há festa no povo.
Enorme, quente, loução,
o sol é uma gema de ovo
pendurado na amplidão.

O céu, no vestido novo
das nuvens cor de algodão,
ri, de alegre, para o povo.
Domingo de procissão.

01 maio, 2018

Vagner Braz

FLUTUA 


Eu vou respeitar tua condição... mas, não vou desistir de você...

O sofrimento é natural ao humano... é necessário para vivermos ...

Ninguém pode gerar sofrimento sem amor... O amor é sofrimento...

E temos que sabermos lidar com isso... Por isso, quero você...

Ivens Cuiabano Scaff

Me faz uma casa


ah! minha gentil arquiteta
me faz uma casa
e eu te convido a morar

uma casa aquática assim
com uma piscina imensa
formato?
claro que o do mar Egeu

me bola uma casa ventosa
pra tilintar campainhas chinesas
derrubando os vasos das mesas
– e você reclame ao arrumar –

uma casa bem gostosa
uma varanda pra prosa
toda a noite após o jantar

29 abril, 2018

Corsíndio Monteiro

Incontido desejo


Desejo da humilde liberdade!
Da liberdade de vagar pelas ruas,
sem horários e sem destino...
Liberdade de ser pobre
e de ser triste.
Liberdade de amar,
liberdade de ficar em silêncio
e de padecer minhas dores...

27 abril, 2018

Vagner Braz

Depressão 


Somos seres humanos depressivos 
Constantemente prestes a explodir 
Em milhares pedacinhos de vidas outras
Nossos destinos deprês 
Chocados 
Doloridos 
Vividos estão visualizando as fotografias sem amor 

Rubens de Castro

Retratando...


Somos todos frustrados neste mundo;
uns são mais, outros menos, mas ninguém
pode gabar-se de não ter no fundo
recalques, pois, de sobra, todos têm!

Um poço de mistérios, bem profundo,
possui em seu recesso todo alguém...
Mas a tara só vem à luz, segundo
o interesse animal que nos convém!

26 abril, 2018

Américo Corrêa

Coração urso 


Minha poesia hibernou! 
Quando hiberna, a poesia,
A palavra fica como que cativa
O peito, um silo,
guardador de versos 
     trancafiados.
Sente-se raso,
     sem profundidades.
     Sem sabor.
     Sem dor.
     Sem perfume.
     Sem eco.
     Sem margens.

25 abril, 2018

Marília Beatriz de Figueiredo Leite

Vida medida


vários medem espaços por metros
eu os avalio por corpos
corpos chegam se deitam
se erguem e se mandam
como estações de trem
correndo para trás.

24 abril, 2018

Maria Ligia Caviglioni

Não queira me possuir
Queira pousar teus lábios em meus lábios
que pelos teus anseiam
Adormeça entre meus seios depois te sugá-los
Mas por favor, não queira me possuir
Invada minhas entranhas
descubra todas as manhas do meu ser
Se renda entre minhas pernas
se perca no calor desse desejo
Mas por favor, não queira me possuir
Percorra meu dorso
explore minhas nádegas
e não me digas nada
Apenas sussurre o teu prazer
Revire meu corpo
refaça meus versos
arranhe minha pele
morda meus bicos
eretos como teu ser

23 abril, 2018

Maria de Arruda Müller


Vespertina


Que segredos me contas, ventania,
quando vens, sonhadora, tatalar
as asas nobres como em litania,
dos coqueiros, ao sol que vai tombar!

19 abril, 2018

José Bonifácio de Albuquerque

O passarinho


Ao ver um dia, preso na gaiola,
um passarinho que gorjeava triste,
num trinar, onde só a dor consiste...
Qual prece humilde que p’ra o Céu se evola!

Inquiri: — Quem te faz pedir esmola
da liberdade, que também te assiste?!
Cuja cena, minh’alma não resiste
porque teu trino só me desconsola!...

14 abril, 2018

Moteczuma



De dia dou socos no ar
de noite sou possuído pela insônia
assim é minha vida
longo caminho de busca
sem encontro.

13 abril, 2018