domingo, novembro 3

Santiago Villela Marques


Sugestão de epitáfio 


Gastou de bem-ter a vida que lhe foi ganha a conta-gota.
Era economista no viver:...
pousava nos minutos com asas de borboleta.
Gostava supremamente
de contemplar folha velha
escorregando em ar seco de inverno
sem pressa de morte.

terça-feira, outubro 1

Helena Werneck

ESSÊNCIA
Somos um amontoado de coisas velhas e usadas
Risos que ecoam pra sempre
Lágrimas que banham os rios do mundo
Histórias antigas
Medos coerentes e outros nem tão coerentes assim
E no fim uma camada tênue do que realmente somos

Pó de pirlimpimpim.

quarta-feira, setembro 25

Helena Werneck

QUEM SOMOS
Esses sapatos já não me servem
Meus pés são libertinos
Essas roupas já não vestem minha alma
Ela se veste de sinos
Já não sabemos quem somos
Meninas? Meninos?
Já não queremos saber
Que importa?
Americanos? Latinos?
Se miamos? Latimos?
Essas coisas não brotam as nascentes
Não são nem sementes
De manacá ou manjericão
Essas coisas são bobas
E passam despercebidas
Pra quem tem coração
Isso já não importa
Porque a vida mesmo torta
É um dente-de-leão.

segunda-feira, setembro 23

Caio Augusto Ribeiro

OLHO NO FURACÃO

o olho do furacão é um olho fechado
um olho fechado com força que enruga a pálpebra e deforma os cantos do rosto

um olho fechado
,trancado,
com tanta força que é possível enxergar o escuro e
luzes
azuis
vermelhas
verdes
quando eu era pequeno pensava que eram gnomos mas hoje eu sei
que o olho do furacão
é um olho fechado na própria intensidade
é de olho fechado que se enxerga-se por dentro e por fora

é uma confusa com fusão
o olho do furacão é um olho fechado com tanta
força
que poucos ficarão para ver o olho aberto deste furacão


Livre de vírus. www.avast.com.

sábado, setembro 21

Poetas agitam a capital mato-grossense à procura de Poetas

PROCURA-SE
Por Caio Ribeiro e Eduardo Mahon | A capital acordou diferente. Pelos muros da cidade, estão pregados panfletos nos quais escritores são procurados. Por que? Trata-se de uma provocação estética e semântica, além de se configurar uma intervenção na dura linguagem urbana. Se, de um lado, vivemos sob a égide da perseguição ao humanismo como expressão livre, por outro, escritores são procurados para nos salvar desse opaco período cultural. Procura-se porque os intelectuais estão sendo caçados. Procura-se porque deseja-se encontrar. Procura-se também porque se quer conhecer. Esse triplo significado está na nossa paródia das antigas recompensas que se ofereciam pela cabeça dos fora-da-lei. Nós, escritores, estamos nos sentindo perseguidos nesse sentido polifônico: repressão e desejo. Desde quando esses sentimentos deixaram de andar juntos?
Procura-se. Querem nos conhecer. Há gente fazendo literatura de qualidade. O que falta é espaço, circulação, oportunidade. Até mesmo nos ambientes em que seria previsível valorizar escritores, estamos nós arrostados por outras letras. Procura-se. Do poder público, as verbas minguadas formam uma colcha de retalhos tão curta quanto inútil. Incentivos episódicos e politiqueiros, ausência de uma estratégia coordenada com setores da educação. Somos caçados há anos, procurados como baderneiros. Estamos foragidos dos gestores insensíveis e não pretendemos nos entregar sem resistência.
A despeito de todo o descaso com a literatura produzida em Mato Grosso, somos desejados. A Unemat adota escritores mato-grossenses no exame vestibular, uma vitória para a categoria e uma distinção para ela mesma. As escolas particulares fazem encomendas às editoras e agendam visitas de escritores a turmas interessadas em conversar sobre literatura. Editoras nunca tiveram tanta demanda, escritores iniciantes e veteranos, unidos no fazer literário. Procura-se. Procuram-nos. Recentemente, o município de Juína abriu procedimento para a aquisição de obras literárias para abastecer a biblioteca municipal que recebeu premiação internacional. Tangará e Cáceres, Sinop e Barra do Bugres, Santo Antônio do Leverger e Lucas do Rio Verde, são cidades onde o público lota os auditórios quando há lançamento de livros.
É na capital que devemos anunciar essa procura, onde está mais próximo o poder que nos procura para limitar não nos procura para conhecer. Como criar uma sensação no universo simbólico da cidade? Essa é uma das provocações do trabalho Procura-se. A repetição é uma ferramenta eficaz. Milhares de lambe-lambes com rostos de mais vários escritores de Mato Grosso tomaram o espaço púbico. A grande escala repete estes rostos com a mesma frase. Rostos com a mesma frase. Mesma frase. Estamos todos foragidos. O muro vai ser página. A cidade vai ser livro. Procura-se. Busca-se conhecer. Quem somos nós? Somos escritores. Fazemos literatura. Queremos espaço. O espaço que é furtado aos escritores dentro de muitos espaços criamos fora. Viramos do avesso, expomos as entranhas. O que não se quer noticiar vira manifesto.
Literatura é mais do que o receituário do médico, a sentença do juiz, a reportagem do jornalista. É mais do que o manual de autoajuda, mais do que teses de doutorado e enciclopédias. Literatura é sonho em prosa ou poesia, é invenção e reflexão, é retrato e criação. Literatura é arte. É a arte que constrói a nossa identidade e não nos deixa esquecer de que somos humanos. Reduzir literatura ao utilitarismo é uma violência. É dizer: a poesia e a ficção não prestam para nada. As mentes mais obtusas interpretam a autonomia da arte como falta de serventia. Quanta pobreza intelectual, quanta aridez estamos vivenciando atualmente, uma mentalidade típica de fanáticos e ditadores.
Procura-se. Procuram-nos. Procuramos também. Pretendemos que nos procurem, que nos interpelem, que nos avaliem, que nos provoquem, mas que nos leiam principalmente. Sejamos nós procurados nas livrarias, nas bibliotecas, nas salas de aula, nos debates e nos lançamentos. Procurados nos jornais, nas revistas, nos sites e nos livros. Procurando bem, estamos formando uma nova tradição literária em Mato Grosso. Queremos ser encontrados por todo o povo mato-grossense. Mas tem gente que prefere não ver. E não ler. Esses não nos encontrarão, ainda que nos procurem para sempre. Para eles, ficaremos foragidos.
Caio Ribeiro, escritor, é um dos fundadores do Grupo Coma A Fronteira.Eduardo Mahon, escritor, é editor-geral da Revista Literária Pixé.

sábado, agosto 3

Santiago Villela Marques

Até o fim 


Era manhã
e amavas a aurora
dourada das asas...
pousadas nas faces
rosadas da irmã.


Gostavas das horas
tal o sol da manhã.
O meio-dia
floriu margaridas.

domingo, junho 9

O passo do instante: Lucinda Persona lança sétimo livro de poesias



A nova obra da imortal da Academia Mato-Grossense de Letras será apresentado ao público no dia 14 de junho, no Sesc Arsenal
Por Maria Clara Cabral / O Livre | Sinalizando a escrita como “um modo de sobrevivência e celebração” já nas epígrafes de Clarice Lispector e Walt Whitman, Lucinda Persona fala das coisas que nos cercam em seu novo livro de poesias “O passo do instante”. A imortal da Academia Mato-Grossense de Letras apresenta a obra ao público no dia 14 de junho (sexta-feira), às 19h, no Sesc Arsenal.
Paisagens (urbanas ou não), atmosferas noturnas, memórias e amores. Sétimo livro da escritora “O passo do instante” revela, já nos primeiros versos, o fascínio pelo fazer poético em si, ao mesmo tempo que se defronta com difícil causa.
“Sem perder contato com o simples, maximizando o mínimo e acercando-se cada vez mais dos elementos cotidianos, a poeta permeia o diário viver de todos nós, ora com rajadas de alegrias, ora com olímpicas tristezas. Nada fica de lado, nem o que foi luz, nem o que foi sombra”.
Editado pela Entrelinhas em comemoração aos 25 anos da editora, o livro é apresentado pelo crítico literário Marcos Pasche, professor de Literatura Brasileira da UFRJ e Raquel Naveira, escritora, crítica literária e professora universitária. A capa é ilustrada pela obra “Pepalantus”, desenho digital da artista plástica Regina Pena, que também ilustrou a capa do seu livro anterior, “Entre uma noite e outra”.
A autora dedica o livro ao seu filho Walter Gustavo “que em sua vida curta foi a própria encarnação do instante”. E abre as páginas do seu livro com uma pergunta que vai direto ao mais profundo do coração e da alma: “Quem poderá deter o instante que não para de morrer?”, da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Prepara, assim, o espírito do leitor para o que virá: os poemas apresentados em duas partes, “Sobrevivências” e “Celebrações”.
“’Passo’ é uma partícula de caminhada; ‘instante’, uma faísca de tempo. De um livro que em seu nome estampa esses termos, pode-se esperar a captação de lampejos existenciais. […] Que por início, então, a jornada da leitura se inicie e desperte vigor e encantamento”, convida o crítico literário Marcos Pasche.
Sobre a autoraLucinda Nogueira Persona é poeta, escritora e membro da Academia Mato-Grossense de Letras. Nasceu em Arapongas, no Paraná, e reside em Cuiabá, Mato Grosso. Graduada em Biologia pela Universidade Federal de Mato Grosso, mestre em Histologia e Embriologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com estágios profissionais na Universidade do Chile. Foi professora na UFMT e Unic, até se aposentar.
A autora publicou os livros de poesia Por imenso gosto (1995), premiado pela UBE em 1997, Ser cotidiano (1998), Sopa escaldante (2001), premiado pela UBE em 2002, Leito de acaso (2004), Tempo comum (2009) e Entre uma noite e outra (2014). Publicou na literatura infantil e integra várias antologias. Colabora com jornais e revistas mato-grossenses escrevendo crônicas, contos e resenhas.
Serviço
Lançamento: do livro de poesias “O passo do instante”, de Lucinda Persona.
Editora: Entrelinhas
Valor do investimento: R$ 40 (no lançamento)
104 páginas; capa ilustrada pela artista plástica Regina Pena
Quando: 14 de junho (sexta-feira) de 2019, a partir das 19 horas
Local: Sesc Arsenal (salão da Choperia) – Rua 13 de junho, s/n, Porto, Cuiabá-MT
(Com assessoria)

segunda-feira, junho 3

Santiago Villela Marques


Adiantado 


Enquanto busco meu destino
minha vida não me espera:
permaneço em mim menino...
e vai sumindo quem eu era.
Pra saber aonde ia
o que em mim pensei ser eu
confiei na estrela-guia
e a estrela minha se perdeu.
Entrei sempre na saída
e pra mim sempre previ
vida dada e não vivida.
Vida veio e não a vi.

O escritor Santiago Villela Marques (*07, 02/1967 – 03/11/2018) também professor da Unemat.

segunda-feira, abril 8

Aurelina Haydée do Carmo

CUIABÁ

CUIABÁ!  Nós te amamos,
Do PORTO à CIDADE
Da 15 de NOVEMBRO
À avenida GETÚLIO VARGAS.

Assim diziam os pioneiros,
Mas a cidade expandiu,
Bairros e mais bairros foram surgindo .
Como num piscar de olhos explodiu.

CUIABÁ,  és nosso encanto
Tem características próprias

Bem aí está o PANTANAL
E mais ali está a CHAPADA

CUIABÁ ! logo, logo completará
Trezentos anos de existência
E o povo de todo PLANETA
Chega sem pedir licença.

Nem precisa, pois tem espaço prá todos
Estamos no CENTRO GEODÉSICO da AMÉRICA do SUL
Bem vindos são :
Os do Norte, Nordeste, Oeste, Leste e Sul.

Rios piscosos temos
Frutas nas ruas e quintais aos montões
Aqui todos dão as mãos
Por isso atrai multidões

CUIABANO é povo amigo
Recebe de braços abertos
Todos que procuram abrigo.
Venham...que aqui tudo dá certo.

Ah! CUIABÁ
Como gostamos de você!
Por isso aqui estamos

E, aqui queremos viver.
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Professora Aurelina Haydêe do Carmo - Aposentada do Departamento de Antropologia da UFMT.

segunda-feira, abril 1

Aurelina Haydee do Carmo

Doce Bom, Furrundu


Saudades do tacho de cobre
Lavado com vinagre e sal
Tirando todo zinabre
Amarelo como o sol

Vamos ao quintal
Mamão macho, mamão
fêmea, talo de mamão
Tanto faz, ralo, ralo até doê a mão
No ralador que ninguém tem igual

Pouca lenha, pouco fogo
Colher de pau, nenhuma fumaça
O Doce ficou famoso
Pois o perfume ameaça

Uma colherada por vez
Ninguém resiste
Prova uma, prova duas, prova três
Fica triste, não, ninguém desiste

Do Porto à Cidade
Eta cheirinho bom
O lambe beiço não é novidade
É mais gostoso que um bombom

Caminhei toda a prainha
Na companhia de minha madrinha
Quando vinha, atravessei o Campo do Bode
Vê se pode. Parei na Bispo, só prá bispar.

O cheiro era um só e comecei a enxergar
Avistei Rua de baixo, Rua do Meio, Rua de Cima.
Que felicidade, encontrei na cidade
O Furundu que me anima

quarta-feira, março 27

Luisa

Sobre o Rio
Descem remos sofridos...
No arvoredo verde à dura sombra,
crespas ondulações que as violas tangem
cadenciando as remadas...
Barcos temporais do destino ignoto.
Acordes que acordam a lua de prata com
música 

terça-feira, março 19

domingo, março 3

Santiago Villela Marques


Pela metade 


A vontade que aqui me guiou
nunca me quis terminado:
sempre me opôs ao que sou...
e ao lado que fez, outro lado.
Nunca me deu a certeza
de ser por inteiro o que fiz:
metade de mim fez tristeza
e a outra metade feliz.

quarta-feira, fevereiro 20

Mourivaldo Santiago


...NUVEM – CAMA...
... ÁGUA – LICOR...
...PÁSSAROS – VITROLA...
EM NÓS O AMOR SE ENROLA...