07 dezembro, 2018

Pedro Trouy


OUTRORA


Da primavera ao sol, que além se erguia,
Como uma hóstia de luz em pleno espaço,
Nós nos amamos... que profundo laço
Nossas almas em flor então unia!

Teu lábio tinha auroras de alegria,
Rosas tinha o vergel, e no terraço
Trilavam passarinhos ... Como escasso,
Fugindo, pouco a pouco o tempo ia!

05 dezembro, 2018

José Zeferino de Mendonça

SONETO

Vosso nome será sempre lembrado
enquanto em Cuiabá houver viventes
passando de umas gentes a outras gentes
a fama do varão o mais honrado

No Foro tendes vós perpetuado
instruções sábias, justas e prudentes;
e nos pleitos deixais todos contentes.
pois sabem que só a bem sois inclinado.

03 dezembro, 2018

Santiago Villela Marques

Primeiro 


O fim primeiro que tudo,
um jeito de acabar o mundo
feito um deus enjeitado ...
anjo aturdido
e atirado ao fogo de seu próprio abismo e castigo.
O naufrágio de toda firmeza
antes de elevarem-se as terras
que homem possa pisar
como nuvens e águas.
A morte primeiro que as outras
— abrir de estradas num fechar de olhos
— mão no solo sagrado do outro
não para o roubo da flor
mas de entrega do novo grão
e de cinco dedos na alma
como no chão da primavera
as raízes da promessa.

01 dezembro, 2018

José Tomás de Almeida Serra


Câmara de Virgem

Quando a luz do luar bate-lhe em cheio
Nas formas de primor escultural,
Julgo fitar a Vênus sensual,
Num langue, voluptuoso devaneio...

Na suave ondular do lindo seio,
Julgo ouvir uma música ideal,
Que me transporta à plaga celestial
De uma aurora louçã ao bruxuleio.

Indalécio Leite Proença


Se a Bahia é boa terra,
Mato Grosso inda é mio;
Pau-rodado cria proa,
Furta bem, enche o bocó.

Dom Benito já tá feito;
É sapão de Tês Lagoas
A questão é só de jeito
Pois o resto vai à toa...

Decorrido argum tempinho,
Ele vai pra Relação
Salvo se no seu bentinho,
Não tivé mais devoção.

29 novembro, 2018

Frederico Augusto Prado D’Oliveira

Pensando em ti

Quando me lembro que por um instante
ocupei teu ingênuo pensamento,
e traindo talvez teu sofrimento,
fiz corar teu angélico semblante:

quando penso que num feliz momento
logrei prender o teu olhar brilhante,
e que por mim pulsou teu inconstante
coração juvenil, de amor isento;

27 novembro, 2018

Antônio Tolentino de Almeida


Cor Lapidis

Se a mágoa que me fere, assim sanhuda,
Um termo não tivesse, pra curá-la,
Bastava apenas escutar-te a fala,
Se não falasses ... ver-te, embora muda:

Pensava assim. Mas, entretanto, cala
A mesma dor no coração aguda;
O teu sorriso o meu sofrer muda,
O teu desdém somente apunhala.

25 novembro, 2018

Antônio Gonçalves de Carvalho

Flor de Neve


Se a neve fosse planta e flor tivesse,
Tu serias da neve a flor, gerada
Da fria viração ao tênue sopro
À luz da lua, aos beijos duma fada.

Se a neve fosse planta e flor tivesse,
Tu serias da neve a flor, mais bela
Que brilhando na eterna imensidade
Fanal de amor, - adamantina estrela.

Se a neve fosse planta e flor tivesse,
Tu serias da neve a flor tão pura!
Ah teriam em ti achado os homens
O símbolo do mais cândida ventura! 

23 novembro, 2018

Antônio Cláudio Soído


MILAGRE


Quando, senhora, vos envio ou dou-vos
Tão escuro presente,

Que idéia tive eu, que pensamento
Me atravessou a mente?

Do vegetal combusto oferecer-vos
Pulverulenta quarta!...

Mas deixai-me falar e, após, senhora,
Ride até ficar farta.

21 novembro, 2018

Amâncio Pulcherio de França

Outrora e Hoje

Meu Deus, que gelo, que frieza aquela! C. de Abreu

Meu Deus, que gelo que frieza aquela,
Que indiferença nos olhares seus
Vejo outra nuvem no horizonte de hoje,
Negra coberta nos azuis dos céus!

Tivera flores meu jardim de outrora,
Tivera rosas de perfume eterno,
Mas hoje as flores sem aroma, secas,
Parecem flores do jardim do inverno.

19 novembro, 2018

Danilo Zanirato

Vida não Morte


A vida parada
ainda não morte
(pulsão de vida
 ainda que amarga)

a morte (sempre) chegando
ainda não morte
(pulsão de morte
 inevitável, indolor, inconsciente,
 sublime)

Sobre gravatas e Edgar Allan Poe

Quem tem medo de Eduardo Mahon
Não sai de gravata borboleta
Procurando pontos e vírgulas
Nem tasca uma palha na madrugada serenata

Quem tem medo de Eduardo Mahon
Observa, se esconde atrás da lombada
Do livro imprenso em legítimo cuiabanês

04 novembro, 2018

Santiago Villela Marques


Santiago Vilella Marques (*07, 02/1967 – 03/11/2018) também professor da Unemat, (pseudônimo de Paulo Sérgio Marques) nasceu na capital paulista e mora em Mato Grosso. Publicou Correspondências (Contos, 2012), Sósias (Contos, 2015),  os livros de poesia Primeiro (2004), Outro (2008) e Três tigres trêfegos (2010, coautoria com Juliana Roriz Aarestrup e Henrique Roriz Aarestrup Alves),  Ângulo bi (2002, coautoria com Marcelina Oliveira, Paulo Sesar Pimentel e Gisele Mocci).

13 outubro, 2018

Vagner Braz

Cores de um piquenique

Eu tenho
inveja do arco-íris
Pois, ele sempre aparece para abraçar a chuva e o sol
Numa união entre diferentes
Iguais nos processos de sorrisos

11 outubro, 2018

As Valiosas Bugigangas de Divanize Carbonieri, por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon | Em qualquer inventário, sobretudo o literário, importa tanto saber o que está arrolado, quanto o que está esquecido. É que o que o autor não diz pode ser mais importante do que a própria escrita. Esse tipo de arrolamento é prazeroso em autores que escondem propositalmente a intenção, ou ainda, escondem-se nas palavras. Talvez tenhamos aí um bom termômetro para mensurar a densidade de uma obra e, por isso, quero destacar a poeta Divanize Carbonieri que pipocou pronta para o consumo nacional, temperada com sal e pimenta, nas duas obras publicadas recentemente pela Editora Carlini e Caniato – Entraves e Grande Depósito de Bugigangas.

31 agosto, 2018

Publicado na Folha de S. Paulo: Morre o poeta e artista visual Wlademir Dias-Pino, aos 91 anos, no Rio

Fundador da poética construtiva no Brasil, liderou o poema-processo e criou obras seminais

Wlademir Dias-Pino
Por Adolfo Montejo Navas, em 30.ago.2018

O poeta Wlademir Dias-Pino morreu nesta quinta-feira (30) , aos 91 anos, em decorrência de uma pneumonia, no Rio. Ele estava internado desde o dia 13 de agosto.

A cerimônia de cremação acontece neste sábado (1º), às 16h, no Cemitério do Caju, no Rio.

Wlademir Dias-Pino foi autor de uma obra visual e gráfica extensa que chega até hoje.

Começou jovem, pela poesia, com livros que escapam do contexto da época e do cânone da Geração de 45, "A Fome dos Lados" (1940) ou "O Dia da Cidade" (1948), ainda mais sendo editados em Cuiabá, onde morava desde 1936, em razão do exílio forçado de seu pai, anarquista. Era, portanto, um lugar fora das capitanias do litoral, como gostava de salientar em seu ideário geopolítico.

29 maio, 2018

Etevaldo de Almeida

Antropofagia, a psicologia da fome


Seus olhos são lindos como zumbido de abelha no preparo do mel.
Seus olhos são lindos como romãs - cheios de olhinhos rosados.
Seus olhos são lindos como tomates maduros na roça.
Seus olhos são lindos como mamões maduros no pé,
como chiado de carro-de-boi carregado,
como lufada de lambari rio abaixo,
como vôo de pomba no mato,

27 maio, 2018

25 maio, 2018

Américo Corrêa

MINHA NEGUINHA


A sua pele negra
de breu pálido.

Essa boca risonha
de dentes alvos.

Esses olhos morenos
que me deixam mudo.

Esse corpo convite
que caminha solto.

23 maio, 2018

Gilson Romeu da Cunha

DESATINO


Com a lucidez dos loucos
amei muito
não foi pouco
amei a mulher à toa
amei a mulher jovem
amei a mulher coroa
amei a mulher dama
amei a mulher da rua
amei a minha mulher
também amei a tua

21 maio, 2018

Carlos Lisboa

O Tempo

Já me sinto com longa e densa idade
como se os anos dessem-me licença
para cantar as dores com verdade
e o futuro ver com indiferença.

Percebo que o porvir é uma sentença
que sempre ilude o olhar, igual vaidade
como se fosse, a fé, contrário a crença
de quem na morte almeja liberdade.

17 maio, 2018

Natalino Ferreira Mendes

Vapor Etrúria


Um longo apito ecoa sonoroso!
— Etrúria!... Diz o povo emocionado.
Já o porto de gente está apinhado:
— Eis, na volta do rio, o barco airoso.

Anos mais de cinquenta, no passado,
ligaste a Corumbá, vapor formoso,
a urbe de Albuquerque (nome honroso!)
– único meio de transporte usado.

15 maio, 2018

Marilza Ribeiro

Sensualidade vegetal


Flor do cerrado
         desabrocha
escancarando sua cor
    na ramagem verde-veludo
que aguarda
     ingênua
as mãos de ferro
que lhe exterminam
        a existência.

Cor dourada
reluz como útero sagrado
          no ventre da mata
como terna canção brotada
          do fundo da terra.

14 maio, 2018

Ana Cláudia Colle



VILA BELA ENCANTADA




Vila Bela encantada,
Dos cânions e das quedas d'água
Vila que não recebeu esse nome de graça.
Escondia seus encantos
Para que aos poucos, os poucos que arriscassem se encantassem.

Vila Bela encantada,
Quanta energia tem em suas águas,
Nem turbina nem hidrelétrica,
É o arrepio no corpo que mede a intensidade dos watts.
Que paz que me traz,
Quanto bem que me faz caminhar pelas trilhas,
Sentir tantos cheiros...
Depois de passar cinco semanas seguidas me encantando não te deixo nunca mais!

06 maio, 2018

Vagner Braz


VINHOS DE LAURÉIS

                                                                                                                      À Doutora Edna Sampaio.

A imagem pode conter: Edna Sampaio, sorrindo, óculos e close-up


O destino rega teu corpo
Tua alma saboreia vinhos de lauréis
Que vivera em todas as tuas travessias
Mulher, Negra, ungida de ordem, livre Doutora
Transformastes tua vida para o bem dos outros
Hoje tu desbravas os limites unematianos
Acoplando os céus da comunidade acadêmica
Pela luta de direitos humanos
UniVERsidade, Edna Sampaio!
DiVERsidade, Edna Sampaio!
PluriVERsidade, Edna Sampaio!

05 maio, 2018

Eduardo Mahon

para você
mando presentes
desembrulhados:
um pôr do sol
três dedos de neve
garoa fina
uma boneca
de menina
latido de cachorro

03 maio, 2018

Lamartine Mendes

Domingo de procissão


Sinos. Há festa no povo.
Enorme, quente, loução,
o sol é uma gema de ovo
pendurado na amplidão.

O céu, no vestido novo
das nuvens cor de algodão,
ri, de alegre, para o povo.
Domingo de procissão.

01 maio, 2018

Vagner Braz

FLUTUA 


Eu vou respeitar tua condição... mas, não vou desistir de você...

O sofrimento é natural ao humano... é necessário para vivermos ...

Ninguém pode gerar sofrimento sem amor... O amor é sofrimento...

E temos que sabermos lidar com isso... Por isso, quero você...

Ivens Cuiabano Scaff

Me faz uma casa


ah! minha gentil arquiteta
me faz uma casa
e eu te convido a morar

uma casa aquática assim
com uma piscina imensa
formato?
claro que o do mar Egeu

me bola uma casa ventosa
pra tilintar campainhas chinesas
derrubando os vasos das mesas
– e você reclame ao arrumar –

uma casa bem gostosa
uma varanda pra prosa
toda a noite após o jantar