25 fevereiro, 2018

Aclyse Mattos

Antimetafísica

Cuiabá: cidade do antimistério,
onde a rua Voluntários da Pátria
acaba no Cemitério.

24 fevereiro, 2018

Flávio Ferreira

O som do berrante


O som do berrante galopando no lombo do vento
faz com que o boi preste atenção no chamado e responde:
muuu, muuu, muuu, muuu...
Ouçam...
Ouçam, quantos berrantes soando,
quantos bois respondendo...
É a boiada no empurra-empurra da estrada,
tocada pelos peões, com chibatas nas mãos, esporas na botina,
chapéu de palha na cabeça
e saudade...
Saudade da mulher amada no coração,
da imagem na janela da casinha de sapê,
das lágrimas escorrendo,
da matula bem arrumada no sapicuá...
Matula no sapicuá, seu moço, é a comida colocada
dentro de um bornal, feito de pano,
que levava quase sempre farofa de carne de tatu ou de veado
e amor, muito amor, no feitio...
E o boi, babando aquela baba de boi,
mascando cumbaru,
olha pro boiadeiro e, entendendo sua saudade,
quase não desobedece...
E caminha resignado pela estrada do Pantanal em busca de novos pastos.
E o som do berrante?
O som do berrante, o som do berrante que antes era só para o boi,
agora,
agora é quase um choro de saudade...

23 fevereiro, 2018

Carlos Gomes de Carvalho

O Pônei


Em minha garganta,
um pônei nervoso dança angustiado
envolto em nuvens
...vai e volta
ele vai e volta
...vai e volta,
quer escapar.

Poeira cósmica invade suas narinas
...ele vai e volta,
não encontra saída
...vai e volta.

22 fevereiro, 2018

Cesário Prado

Voos e quedas


Se alcandoramos às alpinas
plagas gentis do Pensamento,
descemos breve às covalinas
tristezas d’alma em desalento.

Se surge um sol pelas matinas,
loiro a aclarar-nos; num momento
desaparece e só neblinas
vemos no dia nevoento.

É que nossa alma incompreendida,
por mil mistérios combalida,
não pode aos céus voo soltar.

Ai! Quem nos dera desta Terra
deixar o mal que a vida encerra
e para os céus voar, voar...

Somos apenas peregrinos
na pista eterna do ideal;
sonhamos sonhos cristalinos
à luz do Bem, cegos do Mal.

21 fevereiro, 2018

Marta Helena Cocco

Intervalo comercial


Ama depressa
que não há tempo para jogos
nem de dados nem de charme
ama com o amor que tiveres na manga
antigo ou novo em folha
rapidamente que não garantimos
sobrevida fora da bolha
ama aí mesmo debaixo da escada
e cuida que o azar no amor
não te dará algum dinheiro
não pense nos prós e contras
na teoria e nas contas
ama apesar da moda
dos obesos dos nem tanto e dos tísicos
sem levantar hipóteses
deixa aos físicos

o aviso sobre as ilusões
ama sem a nostalgia do vinil e da rádio am
ama logo sem a obsessão da alma gêmea
espécie de incesto platônico
não te dissipes com princesa ou príncipe virtual
com que copulas nas madrugadas
e no intervalo para o almoço
na ausência do chefe
na ausência especialmente
de um amor de carne e osso
ama mesmo com esse amor estropiado
por inumeráveis contingências
além do que pode este poema
ama passando da medida
de peso altura ou profundidade

20 fevereiro, 2018

Newton Alfredo

Imagem...


Olhos fechados, coração sonhando,
dá gosto olhá-la, assim quando adormece...
Alvos braços em cruz, o rosto brando,
numa atitude angelical de prece.

Com um sorriso em seus lábios aflorando,
o lindo busto descoberto esquece...
E o luar pelo quarto penetrando,
enamorar-se dela, então, parece.

19 fevereiro, 2018

Antônio Sodré

Eu não quero as réguas
para traçar meus caminhos.

Eu prefiro as éguas,
num galopar torto y veloz.


18 fevereiro, 2018

Marília Beatriz de Figueiredo Leite

Do alto da Chapada, a meus pés,
uma tênue névoa ocultava contornos
espiritualizando rochas.
Ouvi conversas inconsequentes
na inconsciente alegria de estar
uma só agitação
e na língua o gosto jovem de frutos.

17 fevereiro, 2018

Pedro Casaldáliga

Por onde passei,
plantei a cerca farpada,
plantei a queimada.
Por onde passei,
plantei a morte matada.
Por onde passei,

16 fevereiro, 2018

Wlademir Dias Pino

Brancura


A garça p’ra se esconder
– numa distância de estrela –
vem ficar na frente
da faísca mais branca de areia.

A brancura da areia
come a figura da garça
que-nem cal
numa cor-de-paz.

15 fevereiro, 2018

Tertuliano Amarilha

A Cruz do Poeta


O poeta carrega pesada cruz,
esse infortúnio já está comprovado,
cruel destino seus passos conduz;
é artista que vive crucificado.

A pompa do mundo não o seduz,
por bons momentos não é acompanhado,
por onde anda é sempre escassa a luz,
pelo universo é vilipendiado.

14 fevereiro, 2018

Lucinda Nogueira Persona

Ameixas em Compota


Existe
na vida completa
um amor que não aparece
e nem repousa tranquilo

ó eterna e doce supervisão
do muito que se tem a conservar

as formigas desfilam
num afrouxado cordão
diante dos meus olhos

13 fevereiro, 2018

Rubens de Mendonça

Alavanca de Ouro


Cavavam dia e noite sem cessar
e sem cessar cavavam noite e dia...
Por mais que procurassem cavoucar,
a alavanca na terra se escondia!

No alto do Rosário aparecia
a alavanca de ouro. Era começar
na Colina, o trabalho – ela fugia
cada vez mais na terra a se ocultar!...

12 fevereiro, 2018

Ísis Marimon


Esquizofrenia


Existe uma voz dentro de mim
mansa e imperiosa, permanente e fatídica.
Ela sabe coisas que eu mal pressinto.
Grita, tão baixinho, certas verdades,
que mal consigo escutar.
Fico sem saber se sou vento,
pensamento, ou apenas movimento
à mercê dos vendavais sem tempo.

– Sou o quê? – E a voz se cala.
Existo ou sou miragem? Nada a voz me fala.
E eu permaneço na noite, terrena e ignara,
no movimento cósmico infinito de ir e vir, sonhar e realizar.
– Crer ou duvidar? – A voz vacila.
Tange as cordas de sua harpa,
lançando no ar... quase uma música,
mais parecendo um suspiro de anjo,
uma tela pintada por Deus,
ou o voo de um beija-flor.
– Crer ou duvidar?
Espero a voz... Ela não vem.
O anjo bate as asas e me fita diretamente nos olhos.
A tela de Deus se enche de mais luzes e matizes
e o beija-flor decide fazer seu ninho em meu jardim.

11 fevereiro, 2018

M. Cavalcanti Proença

Xarayés


Ardem topázios pelos céus em fora.
Sobre a pira do ocaso o Dia arqueja;
à flor do Pantanal uma asa adeja
e a voz da anhuma estridula, clangora.

A vaga azul do Xarayés absorto
pega fogo no incêndio do sol-pôr.
Xarayés verde e azul, oceano morto,
oceano triste que morreu de amor.

E a luz do ocaso acorda o impulso ardente
de heroísmo que o teu letargo encerra,
porque tu és, ó Xarayés, ao poente,
o rubro coração da minha terra.

E revivem figuras gloriosas,
crispam-te a face em fulvos arrepios
a proa das igaras numerosas
dos payaguás membrudos e bravios.

Lá desponta a monção, franjas de espuma
vêm abrindo o cortejo das canoas