31 janeiro, 2018

Alírio de Figueiredo

A confissão da Cigarra


Dona Cigarra cantadeira e esguia,
levando vida efêmera e bizarra,
numa tarde outonal contou-me, um dia,
que na Terra somente foi cigarra.

E, se não trabalhava, não pedia;
na Terra só foi música, guitarra,
enchendo-a de canções e de alegria,
simplesmente, na Terra, só cigarra.


– Dona formiga bem mentiu, perdoa;
não lhe bati jamais a porta,
mesmo em noites de bruma e de garoa.

Fui hino, fui canção, nunca elegia,
e morro – folha seca – mas que importa
se cantei e animei a quem me ouvia!

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