22 fevereiro, 2018

Cesário Prado

Voos e quedas


Se alcandoramos às alpinas
plagas gentis do Pensamento,
descemos breve às covalinas
tristezas d’alma em desalento.

Se surge um sol pelas matinas,
loiro a aclarar-nos; num momento
desaparece e só neblinas
vemos no dia nevoento.

É que nossa alma incompreendida,
por mil mistérios combalida,
não pode aos céus voo soltar.

Ai! Quem nos dera desta Terra
deixar o mal que a vida encerra
e para os céus voar, voar...

Somos apenas peregrinos
na pista eterna do ideal;
sonhamos sonhos cristalinos
à luz do Bem, cegos do Mal.


Cantando às vezes lindos hinos
– melros pousados no choupal,
despercebemos os destinos
nos aguardando um tremedal.

Caídos somos. Lutulenta,
a morte vem mais violenta
arremessar-nos para o Além.

Cessa a Esperança e somos vermes
para o rastejo e a nós, inermes,
putrefação célere vem.

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