24 fevereiro, 2018

Flávio Ferreira

O som do berrante


O som do berrante galopando no lombo do vento
faz com que o boi preste atenção no chamado e responde:
muuu, muuu, muuu, muuu...
Ouçam...
Ouçam, quantos berrantes soando,
quantos bois respondendo...
É a boiada no empurra-empurra da estrada,
tocada pelos peões, com chibatas nas mãos, esporas na botina,
chapéu de palha na cabeça
e saudade...
Saudade da mulher amada no coração,
da imagem na janela da casinha de sapê,
das lágrimas escorrendo,
da matula bem arrumada no sapicuá...
Matula no sapicuá, seu moço, é a comida colocada
dentro de um bornal, feito de pano,
que levava quase sempre farofa de carne de tatu ou de veado
e amor, muito amor, no feitio...
E o boi, babando aquela baba de boi,
mascando cumbaru,
olha pro boiadeiro e, entendendo sua saudade,
quase não desobedece...
E caminha resignado pela estrada do Pantanal em busca de novos pastos.
E o som do berrante?
O som do berrante, o som do berrante que antes era só para o boi,
agora,
agora é quase um choro de saudade...

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