11 fevereiro, 2018

M. Cavalcanti Proença

Xarayés


Ardem topázios pelos céus em fora.
Sobre a pira do ocaso o Dia arqueja;
à flor do Pantanal uma asa adeja
e a voz da anhuma estridula, clangora.

A vaga azul do Xarayés absorto
pega fogo no incêndio do sol-pôr.
Xarayés verde e azul, oceano morto,
oceano triste que morreu de amor.

E a luz do ocaso acorda o impulso ardente
de heroísmo que o teu letargo encerra,
porque tu és, ó Xarayés, ao poente,
o rubro coração da minha terra.

E revivem figuras gloriosas,
crispam-te a face em fulvos arrepios
a proa das igaras numerosas
dos payaguás membrudos e bravios.

Lá desponta a monção, franjas de espuma
vêm abrindo o cortejo das canoas


e a tua vaga as beija, uma por uma,
de rudes argonautas te povoas.

Depois?... O payaguá, e a luta, e breve
a tua água se tinge num instante
de rubro sangue, a tinta em que se escreve
a Epopeia Imortal do Bandeirante.

E ouves a última queixa do precito,
vendo a torre do sonho que desaba,
que vai morrer, que é filho... E o olhar aflito
procura os lados de Araritaguaba.

Aquele outro que boia sobre as águas
era noivo. Ainda hoje se pressente
a sua alma a chorar, cheia de mágoas,
no grito ansioso da arancuã nubente.

Calmas... É noite, sonolento, absorto
tu que, há pouco, eras púrpura e esplendor,
Xarayés verde e azul, oceano morto,
oceano triste que morreu de amor.

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