01 março, 2018

José Antônio da Costa

Velho cachimbo


Velho cachimbo que encontrei perdido
no meu pomar, ao pé de um umbuzeiro,
há quanto tempo estavas esquecido,
porém subsistindo ao cativeiro.
Só mesmo em barro perdurar podias.
Ao te mirar, me lembro do passado,
em que o negro sofria escravizado,
sem voz, sem liberdade, nas senzalas,
e da macumba aos passos ritmados
do fetichismo, os deuses invocados
ao soar do atabaque ensurdecido,
do bamboleio do seu rude corpo,
das blasfêmias em sua língua estranha
contra aqueles que o foram cotizar
em Moçambique, Angola ou Zanzibar.
Se pudesses falar, o que dirias?
Um romance, por certo, escreverias
de anátemas, quem sabe? De perdão,
porque também sofreste a desventura
de pertencer à negra escravidão.
Se a pele em muito caso é preta, escura,
mas é alvo, no fundo, o coração.
E, no entretanto, como eu te venero
simbolizando assim esse passado
de conquista e de glórias, sublimado
na criação do meu Brasil querido,
em que o negro fez tanto e nada tem.

Quantas vezes teu dono, pensativo,
a contemplar o fumo, em espiral,
mandava o pensamento redivivo
sobre as plagas do seu torrão natal.
E, clamando, clamando a sua sorte
de preso e escravizado até a morte,
rolavam-lhe nas faces desterradas
da nostalgia as lágrimas choradas.
Boca estragada e bem fendida ao meio,
desenhos toscos, de molduras cheio,
relembrando por certo alguma cousa
dessa existência que o passado envolve
e que somente agora se resolve
nas páginas velhíssimas da lousa.
Será que, porventura, em algum dia,
bebendo da existência uma alegria
ouviste o teu senhor sorrir consigo?
Nada respondes, porque nada falas.
São cousas que morreram nas senzalas
e dormem para sempre no jazigo.
Vou te levar ao panteon da história;
desse passado tu ganhaste a glória,
é um direito que tens adquirido.
Ninguém te negará esse lugar,
e lá, entre a velhice do teu tempo,
terás com quem, por certo, conversar.

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