08 março, 2018

Ronaldo de Castro por Carlos Gomes de Carvalho


Ah! Cuiabanália não nos esqueçamos deste Poeta.


Por S. Carlos Gomes de Carvalho | Quando me mudei para Goiânia, nos anos iniciais da década de 1960, fiz o exame de admissão [naquela época exigia-se] para entrar no tradicional e respeitado ‘Liceu de Goiânia’. Lá, um ou outro colega, mais informado, me indagava se conhecia um jornalista que era de Cuiabá. Não, não conhecia. Admiravam seus escritos combativos, numa linguagem desabrida, forte, contundente. Dessas que os estudantes mais antenados costumam apreciar.

Comecei a colaborar na ‘Folha de Goiaz’, órgão dos Diários Associados, igualmente me falavam de um jornalista magrinho, que escrevia rápido, com frases curtas, diretas e muita audácia. Era de Mato Grosso. Não, não o havia conhecido ainda. Depois, frequentador de algumas rodas de noctívagos, me diziam sobre um poeta de versos livres, combativos e fortes, mas igualmente de um boêmio dado a longas libações etílicas. De fala rápida, com um leve sotaque cuiabano, e, sobretudo loquaz. O que contrastava com os seus momentos de sobriedade, quando se mostrava mais calado, pensativo, talvez nostálgico. É claro que logo me pus à procura dessa figura marcante. Precisava conhecê-lo. Soube, então, por alguns dos estudantes mato-grossenses que se reuniam na AMEGO – a Associação Mato-grossense de Estudantes em Goiás, para a qual acabaria entrando, a convite do Helmuth Daltro, que ele já não mais se encontrava em Goiânia. Não sabiam se teria retornado à Cuiabá, ido para o Rio de Janeiro ou para qualquer outro lugar. Simplesmente havia desaparecido da imprensa, das rodadas boêmias, dos eventuais encontros com os co-estaduanos. Era o tempo de caça às bruxas. E ele era um homem de esquerda, não sei se filiado, mas muito próximo ao Partido Comunista Brasileiro. Então esse encontro só aconteceria quase vinte anos depois. Foi no combativo “Correio de Imprensa” do firme Jota Maia, onde colaborei por vários anos, que tive a oportunidade de conhecer Ronaldo de Castro.


Sim, amainado pelo tempo, que apara as arestas, afina o conhecimento, lustra a experiência, em minha frente estava o Ronaldo de Castro de sempre: poeta, jornalista, boêmio. A rebeldia, o inconformismo permanecia. Amizade e afinidades literárias nasceram ali. Acompanhava os seus artigos no CI e recebia, quase em primeira mão, os seus poemas. Apesar da qualidade, e da quantidade de poesias, Ronaldo não tinha livro publicado. Seus versos estavam espalhados pelos inúmeros periódicos, a maioria já extintos, em que colaborara. É claro que isso não poderia continuar. Seria uma ofensa terrível contra as atuais e futuras gerações, além de uma indesculpável lacuna na história da literatura em Mato Grosso.

Assim, quando estive presidente da Fundação Cultural de Mato Grosso publiquei o seu primeiro livro, e até agora único. Criei uma “Coleção Letras Mato-grossenses”, com a ambição de lançar diversos autores, de gêneros diversos, que infelizmente, por desinteresse governamental, não tivemos êxito. Nela estava a série “Poetas Contemporâneos”, [que publicaria seis poetas] por onde saiu, em 1989, “Cuiabanália”. Um pequeno volume de cerca de 60 páginas. Anos depois, eu o incluiria em meu livro “A Poesia em Mato Grosso – Um percurso histórico de dois séculos”.

Ronaldo de Arruda Castro [17/03/41 – 28/07/01], que anos depois, ao lado do pai, o também poeta Rubens de Castro, ocuparia uma Cadeira na AML, deixou uma marca inconfundível com a sua poesia. Mesmo tendo abandonado a rebeldia pessoal que o marcara anos antes, todavia não deixou que seus poemas abandonassem o vigor de um inconformismo nato.

O pequeno espaço desta coluna não permite que se traga, nem mesmo uma pequena parte [talvez em outra ocasião], da força telúrica, politica e social desse autentico poeta cuiabano. Um poeta a ser ensinado nas escolas.

O poema que dá título ao livro “Cuiabanália”, e é o mais longo deles, é a manifestação da dor existencial de um poeta “destas colinas de Cuiabá / nascido na rua da Fé”, que assiste a sua cidade natal ser afogada na destruição, embebedada pela ganancia do vil metal, corroída pela corrupção politica e dos costumes. Trata-se de um canto não só de nostalgia, como de desespero, de um lancinante sofrimento por aquilo em que sua terra se tornou. Poucos declamam tão bem esse poema contestatório e simultaneamente amoroso, como o seu primo Neneto. Vejamos um pequeno trecho:

Ah! Cuiabanália ...

Cidade intoxicada do bagaço / tecnetrônico
......
Onde o viver canônico / à sombra cheirosa dos quintais em
flor? / Narcotizou-se o amor? Ah! Cuiabanália... .
Ah! Cuiabanália ... / Agora, espigões, néon / excesso de
decibéis.

Onde a boa putaria? / (O bom era o Beco do Candieiro / a
desembocar no Bar Colorido / com o beijo disputado na
valentia).

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Onde a Cuiabá telúrica / parindo a raça viril / emprenhada por
Sutil?

Ah! Cuiabá canalha / - cuiabanália - / cortesã das
multinacionais / com seu arsenal eletrônico / agônico /
estereofônico / biônico / supersônico / Atômico.
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Onde a Cuiabá erudita / doce e mansa / culta e santa / Cuiabá
romântica / semântica / dos artistas e poetas? / Onde a
barroca matriz / o coreto e o chafariz?
Ah! Cuiabanália

Cuiabanália Canalha

Eis o poeta sofrido, angustiado, destemido que completaria na próxima semana 79 anos de idade. Não poderia ser esquecido.

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