11 março, 2018

Santiago Villela Marques

Outro


O sol se olha é no vermelho da rosa.
Ser-se água é preciso de estar lagoa.
O dentro se sabe só quem é de fora.
Escuro se esconde em muro de grota.
Dor de estar morto é vivo que chora.
Valor do verão quem diz é a garoa.
Raiz se escreve na folha que brota.
Força do dia é o contorno da sombra.
Medo é o que mede o tamanho da cobra.
Sede é chuva que chão em fogo escoa.
Pulmão de rio no incêndio se afoga.
Silêncio é excesso de verbo na boca.
Treva é prenúncio de mais uma trova.
Peixe de fundo e lua cheia se encontram.
Sina de formiga tamanduá mostra.

Galinha, de boba, adivinha a onça.
O que tracajá bota gambá é que desova.
Velhice é o atrás da ruga na moça.
Deus só se conhece pelo que obra.
Do homem, o homem é o homem que sonha.
Em ninho que é meu chupim é quem mora.
O tempo que sobra é o que o tempo rouba.
Hora de ser se deduz na demora.
O amor de uma vida se explica na outra.
De si e para si quem vive, senhora?

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