10 abril, 2018

Augusto Cavalcanti

A visão de Caim


Enquanto, à noite, os seus repousam do labor
na tenda que adormece e que aos poucos se ensombra,
ele somente vela; e, súbito, na sombra,
ei-lo torvado já, tolhido de pavor.

Os filhos, envidando o seu maior desvelo,
o tentam acalmar nessa luta sem fim;
mas é em vão que Jubal, Enoch, Tubalcaim
lhe procuram deter o torvo pesadelo.


E, fugindo à visão, que lhe recorda a imagem
de seu irmão Abel e sua culpa atroz,
ele nas mãos da prole eis que deixa o albornoz
e se some na noite, erradio e selvagem.

E, no entanto, ao passar pelas trevas, fugaz,
o fantasma o acompanha e lhe aumenta aquela ânsia,
e lhe diz: “Eu te sigo através da distância
e do tempo, Caim, onde quer que tu vás”.


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